Por: Redação Medportal – Rio de Janeiro
01 de agosto de 2025
Alta performance e humanização são frequentemente colocados em extremos opostos nas discussões sobre saúde. De um lado, a pressão por resultados e metas; do outro, o compromisso com o bem-estar de colaboradores e pacientes. Mas será que esses dois elementos realmente se excluem?
Foi com essa provocação que o CEO do Medportal, Thiago Constancio, abriu a segunda temporada do Medportal Podcast. O convidado do episódio de estreia foi Luiz De Luca, uma das maiores referências em gestão hospitalar no Brasil, com passagens por instituições como Hospital 9 de Julho, Samaritano e Américas Serviços Médicos. A conversa contou também com a participação da executiva Iara Diniz, co-host da temporada.
Como aplicar o conceito de alta performance com propósito nas instituições de saúde
Na prática, alinhar performance e propósito exige um modelo de gestão que valorize o esforço contínuo e as conquistas coletivas. “A pior coisa é a pessoa buscar a alta performance e não vencer. Alta performance tem que ser concluída com vitória”, reforça De Luca.
Nesse contexto, a organização precisa garantir que as equipes tenham os meios necessários para alcançar os objetivos: capacitação, comunicação clara, feedbacks honestos e uma liderança coerente, que inspire pelo exemplo.
A base da cultura de alta performance: confiança real e segurança psicológica
Uma equipe de alta performance precisa de confiança para arriscar e inovar. “A confiança se conquista. Não se pede confiança sem histórico”, afirma De Luca. Iara Diniz complementa com uma das principais lições do livro Os 5 desafios das equipes: uma história sobre liderança, de Patrick Lencioni: a confiança é o alicerce das melhores equipes.
É esse ambiente de confiança que permite lidar com erros como parte do aprendizado, não como ameaça. Para De Luca, o problema é quando há baixa tolerância à verdade. “Hoje, qualquer manifestação voltada para o erro ou correção é tomada como algo pessoal. Vivemos uma geração que tem dificuldade com a verdade, e isso atrapalha a construção de times de alta performance.”
Como fortalecer a confiança entre equipes na área da saúde
Um caminho para fortalecer a confiança é tornar as lideranças mais transparentes e autênticas. De Luca lembra que sempre buscou ser uma única pessoa, dentro e fora do trabalho: “Não existia versão pai, amigo, líder. Era um único De Luca”. Essa coerência cria previsibilidade e, consequentemente, confiança. Outra estratégia é criar rotinas seguras de feedback, em que líderes e liderados tenham espaço para ajustar expectativas sem punições desproporcionais.
Essa base de confiança é justamente o primeiro degrau de um modelo amplamente reconhecido por equipes de alta performance: as cinco disfunções do trabalho em equipe, descritas por Patrick Lencioni. Vamos aprofundar isso mais à frente.
O papel do esporte como metáfora de performance sustentável
Ao longo do episódio, esporte e disciplina apareceram como metáforas para o compromisso com a excelência. De Luca é maratonista e planeja sua 19ª maratona em 2026. “Maratona dói. Mas me ensina a performar. O que não praticamos nas empresas é a performance. A gente aceita que cada um dê o mínimo, quando deveríamos exigir o máximo”, pontua.
Essa visão é corroborada por Thiago Constancio, que também compartilha sua experiência com artes marciais. “Mesmo sendo iniciante no jiu-jitsu, fui desafiado a competir. Primeiro senti resistência, mas depois percebi o quanto esse desafio me impulsionava”, comenta.
Como a liderança pode transformar o esforço individual em desempenho coletivo
O esporte, assim como a saúde, exige esforço individual com foco no coletivo. Uma instituição só atinge a alta performance quando todos se comprometem com o mesmo nível de excelência. Mas isso exige uma liderança que reconheça os diferentes níveis de maturidade das equipes, sabendo que nem todos estão prontos para performar no mesmo ritmo.
“Se você não está preparado para a alta performance, não adianta disponibilizar psicólogos ou ferramentas. Essa vontade tem que estar dentro da pessoa”, destaca De Luca. Mas também é papel da liderança identificar talentos intermediários e criar oportunidades para seu desenvolvimento.
Mas o desejo individual só se transforma em excelência organizacional quando há estrutura, confiança e clareza de propósito — aspectos fundamentais também descritos nas metodologias de equipes de alta performance, como o modelo das cinco disfunções que retomamos a seguir.
Como criar uma cultura de alta performance sem comprometer o cuidado com as pessoas
A resposta está em assumir que não existe alto desempenho sem pessoas preparadas. E não se prepara gente sem educação continuada, comunicação clara, diretrizes coerentes e tempo para amadurecimento. De Luca reforça que “não tem nada mais humanizado do que cuidar dos outros”. E cuidar de uma instituição de saúde é cuidar da estrutura que permite que esse cuidado aconteça.
Por isso, construir uma cultura de alta performance é, acima de tudo, cuidar das pessoas. E não apenas pacientes, mas equipes inteiras que precisam de propósito, formação, confiança e estímulo para entregar o melhor de si.
Ferramentas práticas para criar culturas de alta performance na saúde
Uma cultura de alta performance precisa ser construída sobre bases sólidas. Para isso, identificar e corrigir os comportamentos que minam o desempenho coletivo é um passo essencial.
Livro recomendado: Os 5 desafios das equipes: uma história sobre liderança, de Patrick Lencioni.
Neste best-seller, Lencioni apresenta uma metodologia prática para diagnosticar os principais bloqueios que impedem o alto desempenho em equipes. Seu modelo é baseado em cinco disfunções que se sobrepõem e comprometem a entrega de resultados sustentáveis.
As cinco disfunções são:
- Ausência de confiança: membros não se sentem seguros para mostrar vulnerabilidade ou admitir erros.
- Medo do conflito: evita-se o confronto produtivo, essencial para decisões claras.
- Falta de comprometimento: sem debates reais, os compromissos são superficiais.
- Fuga da responsabilidade: os membros não se cobram mutuamente quando alguém foge do combinado.
- Desatenção aos resultados: interesses individuais ou de áreas se sobrepõem ao objetivo coletivo.

Como aplicar na sua instituição:
Faça um diagnóstico franco com sua equipe e avalie quais desses comportamentos aparecem nos seus times. A partir disso, comece pela base — promovendo espaços seguros para vulnerabilidade, falhas e aprendizados — e vá subindo a pirâmide. O compromisso com o resultado começa com relações de confiança.
Estratégia de formação recomendada:
Implantar uma plataforma de educação continuada digital, com trilhas específicas de desenvolvimento para lideranças, ajudam gestores a identificar, trabalhar e reverter essas disfunções com intencionalidade e ritmo — sem abrir mão da excelência operacional e do cuidado com as pessoas.
Conclusão
Alta performance na saúde não é uma questão de rigidez, mas de responsabilidade com os resultados que importam: segurança do paciente, sustentabilidade da operação e desenvolvimento das pessoas. O episódio com Luiz De Luca e Iara Diniz nos lembra que não há excelência sem intenção. E que a humanização começa, sim, por metas claras, por times confiáveis e pela coragem de não aceitar a mediocridade como ponto de partida.
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