Por: Redação Medportal – Rio de Janeiro
30 de maio de 2025
Se você é líder, gestor de qualidade, RH ou profissional de educação na saúde, provavelmente já se deparou com essa dúvida:
“Como saber se o treinamento realmente fez efeito?”
A verdade é que essa não é só uma dúvida sua. É uma dor constante em instituições que realmente se preocupam com qualidade, segurança e desenvolvimento dos seus times. Afinal, mais do que aplicar treinamentos, é preciso garantir que eles façam sentido, promovam mudanças e gerem resultados concretos na rotina assistencial.
E não estamos falando só de frequência ou da nota na avaliação final. Medir eficácia vai muito além disso.Este artigo é um convite para refletir e, principalmente, encontrar caminhos práticos sobre como avaliar a eficácia dos treinamentos na saúde.
Como começar a avaliação de eficácia dos treinamentos na saúde
A avaliação começa muito antes da aula, do curso ou da abertura do conteúdo online.
Avaliar só faz sentido quando sabemos responder claramente:
“O que queríamos que mudasse… de fato mudou?”
Se o treinamento não tem um objetivo claro, nem adianta falar de avaliação. A pergunta perde completamente o sentido.
Por isso, o primeiro e mais decisivo passo é alinhar qual problema ou qual oportunidade aquele treinamento quer resolver.
- Quer reduzir erros de medicação?
- Quer aumentar a adesão ao protocolo de cirurgia segura?
- Quer fortalecer o clima de segurança no setor?
- Ou desenvolver a comunicação e o trabalho em equipe?
Quando existe clareza sobre o que se quer transformar, avaliar deixa de ser um desafio confuso e vira um processo estruturado, com começo, meio e fim.
Indicadores para avaliar treinamentos além de frequência e nota
Vamos ser diretos:
Frequência e nota na prova medem presença e retenção de conteúdo, não eficácia.
O que realmente importa?
- Aderência aos protocolos depois do treinamento.
- Queda nas notificações de falhas ou eventos adversos relacionados ao tema.
- Evolução dos indicadores assistenciais (ex.: queda, lesão por pressão, eventos sentinela).
- Melhora visível no comportamento das equipes — mais alinhamento, comunicação eficiente, trabalho colaborativo.
O levantamento da SOBRASP (2023) mostrou que hospitais que trabalham fortemente o desenvolvimento da cultura de segurança têm até 22% mais aderência aos protocolos de segurança do paciente.
Como medir resultados em treinamentos comportamentais e normativos na saúde
Vamos começar entendendo o peso desses treinamentos na saúde:
- Treinamentos normativos: estão diretamente relacionados à segurança assistencial, à sustentabilidade financeira (glosas, sanções) e ao compliance regulatório.
- Treinamentos comportamentais: impactam diretamente na segurança do paciente, na cultura organizacional, no clima de trabalho, na retenção de talentos e, claro, na qualidade assistencial.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), falhas na comunicação estão entre as cinco principais causas de eventos adversos no mundo.
Sim, dá para medir e precisa ser medido. Como?
- Aplicando pesquisas de clima de segurança antes e depois.
- Usando checklists comportamentais aplicados em visitas, rounds ou simulações.
- Acompanhando indicadores indiretos, como aumento nas notificações voluntárias (sim, mais notificações mostram que o ambiente ficou mais seguro para reportar!).
- Solicitando feedback estruturado dos líderes sobre como as equipes estão se comportando na prática.
Tudo isso só faz sentido se a instituição entender que o desenvolvimento de competências não técnicas é tão estratégico quanto ensinar a fazer um curativo ou aplicar uma medicação.
Em quanto tempo aparecem os efeitos dos treinamentos na saúde?
Depende. E essa é a resposta mais honesta.
De maneira geral, funciona assim:
| Quando avaliar? | O que observar? |
| Logo após o treinamento | Se o conteúdo foi entendido. Satisfação, nota, feedback. |
| De 15 a 30 dias | Se o colaborador começou a aplicar na prática. |
| De 3 a 6 meses | Consolidação ou não das práticas. Avaliar impacto real. |
| Após 6 meses | Avaliar necessidade de reforço, reaplicação ou atualização. |
Exemplo prático:
Um treinamento sobre protocolo de prevenção de lesão por pressão pode ter seu efeito inicial logo após — com o aumento do preenchimento correto dos formulários e melhores práticas na troca de curativos.
Mas é entre 90 e 180 dias que começa a aparecer no indicador institucional uma redução real dos casos de lesão por pressão.Avaliar não é um evento. É um ciclo. E nos 6 meses, inclusive, é estratégico avaliar se há necessidade de reforçar ou reaplicar esse mesmo treinamento.
Métodos validados para avaliar eficiência e retorno sobre o investimento (ROI) de treinamentos na saúde
Dois modelos são mundialmente reconhecidos e altamente aplicáveis à saúde:
Modelo Kirkpatrick — Avaliação em 4 Níveis
É o modelo mais utilizado no mundo para avaliar treinamentos corporativos e na saúde.
| Nível | O que mede? | Exemplo na saúde |
| 1. Reação | Satisfação e percepção dos participantes. | Pesquisa no final sobre clareza e aplicabilidade. |
| 2. Aprendizado | O que foi efetivamente aprendido. | Avaliação teórica sobre protocolo de medicação segura. |
| 3. Comportamento | Mudança na prática cotidiana. | Aumento da adesão ao protocolo após 30 dias. |
| 4. Resultados | Impacto nos indicadores institucionais. | Redução de erros na administração de medicamentos. |
Modelo Phillips — Avaliação de ROI
O modelo Phillips complementa Kirkpatrick com o quinto nível:
- 5. ROI — Retorno sobre o investimento.
Aqui você mede quanto foi investido no treinamento e quanto ele trouxe de retorno, seja em economia, redução de eventos, menos glosas ou aumento de produtividade.Veja este exemplo:
Após treinamento sobre prontuário eletrônico, a redução de glosas evitáveis gerou uma economia de R$ 150 mil no semestre.
Com investimento de R$ 30 mil, o ROI foi de 400%.
Como avaliar sem ser tudo manual: ferramentas e automação
- LMS com Analytics (como o Medportal): controle de presença, notas, desempenho e cruzamento com dados operacionais.
- Dashboards de Qualidade e Segurança: acompanhe se quem não fez o treinamento apresenta mais erros assistenciais ou não conformidades.
- Formulários digitais: para observações, checklists e avaliações aplicadas pelos líderes em campo.
- Integração com BI: dados da educação conversando com indicadores assistenciais e operacionais da instituição.
🔔 Educação é dado estratégico. Se 25% da enfermagem não fez treinamento de prevenção de quedas, o risco começa na educação — e isso precisa estar no radar da segurança do paciente.
Dados da educação são dados estratégicos: Quem mede, melhora
Avaliar treinamento na saúde não é burocracia.
É gestão de risco. É pilar da cultura de segurança. É gestão estratégica.
Se sua instituição quer:
- Melhorar segurança e qualidade.
- Reduzir riscos.
- Tornar a educação um ativo estratégico…
Avaliar treinamentos é um caminho sem volta. E, sim, a tecnologia pode ser sua maior aliada nessa missão.
