Por: Redação Medportal – Rio de Janeiro
23 de maio de 2025
A crise na saúde vai muito além da falta de recursos. Em todo o mundo, e especialmente no Brasil, hospitais e instituições enfrentam um problema silencioso, mas profundo: o desgaste emocional, o desengajamento e a dificuldade de reter profissionais comprometidos com um cuidado verdadeiramente humano. No novo episódio do Medportal Podcast, Thiago Constancio recebe duas convidadas com vivência intensa nesse campo: Cristina Moro, diretora de desenvolvimento da Fundação Amaral Carvalho, e Elisabeth Alves, especialista em gestão de pessoas por competências – consultora associada da FATOR RH.
A conversa revela mais do que boas práticas. Ela mostra como é possível transformar o ambiente de trabalho em saúde a partir de cultura, liderança e intenção. Este artigo aprofunda essas reflexões e propõe caminhos práticos para líderes que não aceitam a mediocridade como destino.
O que faz um hospital ser lembrado pelo propósito?
O Hospital Amaral Carvalho, em Jaú (SP), é um centro de referência em oncologia que atende mais de 90% de seus pacientes via SUS, embora tenha como obrigação contratual apenas 60%. O que faz uma instituição ir além, de forma tão consistente?
Para Cristina Moro, a resposta está na cultura institucional que se perpetua ao longo das gerações. Ela narra como a fundação começou com uma maternidade que atendia a população carente da região e evoluiu para se tornar o primeiro hospital oncológico do interior de São Paulo. A presença histórica do cirurgião Dr. Montenegro, que formou equipes locais e estabeleceu os pilares da oncologia humanizada na região, moldou um legado que permanece vivo até hoje.
“A humanização que a gente cultiva, vem de uma cultura que é enraizada da Fundação Amaral Carvalho.”, afirma Cristina no episódio.
Oncologia: onde a empatia não é opcional
Se em qualquer área da saúde já é difícil equilibrar desempenho e sensibilidade, na oncologia o desafio é extremo. Lidar com o sofrimento diário, perdas frequentes e pacientes em tratamento prolongado exige dos profissionais uma carga emocional imensa. E o risco é claro: burnout, desumanização e rotatividade.
De acordo com um estudo publicado no Journal of Clinical Oncology (2020), cerca de 38% dos profissionais que atuam em oncologia clínica relataram sintomas de burnout, muito acima da média de outras especialidades. A mesma pesquisa aponta que o apoio institucional e a clareza de propósito são os maiores fatores protetores contra esse desgaste.
Como manter o propósito vivo: lições práticas de Jaú
A Fundação Amaral Carvalho ultrapassa um discurso sobre cultura. Ela a cultiva de forma intencional! Veja algumas das práticas destacadas no episódio:
- Comissão de Humanização ativa, com ações organizadas duas vezes por ano envolvendo pacientes e profissionais;
- Projetos que realizam desejos de pacientes e promovem vínculos emocionais com a equipe;
- Integração de novos colaboradores com histórias reais e encontros que resgatam os valores da instituição;
- Acompanhamento diário dos líderes com suas equipes, promovendo escuta ativa e análise de processos;
- Indicadores bem definidos para equilibrar performance e cuidado, sem abrir mão da saúde mental do colaborador.
Cristina enfatiza a importância da escuta e da presença: “Eu me reúno todos os dias com as equipes! E eu sei de todos os processos que acontecem no hospital. Existem várias maneiras de se liderar, eu sou assim, porque escolho ser próxima de todos funcionários! Minha sala tem porta, mas não tem chave. Eu recebo todos que querem falar comigo”.
Pessoas são o centro: o papel do RH por competências
Elisabeth Alves complementa a visão institucional com uma abordagem prática de gestão. Para ela, engajar começa com entender a pessoa que está por trás do crachá. Em seus projetos com a Fator RH, ela aplica metodologias de gestão por competências que alinham os comportamentos esperados com os valores institucionais.
O modelo de competências permite identificar os pontos fortes e os gaps dos profissionais e construir trilhas de desenvolvimento sob medida. Isso traz ganhos diretos de performance, mas, sobretudo, dignidade ao profissional, que sente que não é só mais um na engrenagem.
Ferramenta prática: a jornada de integração com propósito
Uma das ações mais simples e eficazes destacadas no episódio é o fortalecimento do processo de integração de novos colaboradores. A dica prática é construir uma Jornada de Integração com Propósito, que inclua:
- Histórias reais da instituição, contadas por colaboradores antigos ou pacientes;
- Apresentação clara dos valores institucionais e sua aplicação no dia a dia;
- Momentos de escuta com os líderes para entender expectativas e acolher inseguranças;
- Mapeamento de competências e direcionamento de desenvolvimento;
- Apadrinhamento por um colaborador experiente que represente bem a cultura da instituição.
Essa jornada tem um impacto direto no engajamento e reduz significativamente o turnover nos primeiros meses.
Conclusão: Cuidar de quem cuida é um ato estratégico
A saúde não pode mais ser gerida com foco apenas em metas e números. O cuidado começa dentro das instituições, e ele passa pela escuta, pela cultura, pela formação contínua e pela valorização das histórias de cada colaborador. Em um ambiente onde o sofrimento faz parte da rotina, como a oncologia, engajar profissionais em um propósito maior não é luxo — é condição para a excelência.
Se você lidera uma instituição de saúde e deseja construir uma equipe engajada, competente e conectada com o propósito, o episódio com Cristina e Elisabeth é uma aula de humanidade, gestão e futuro.
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