Por: Redação Medportal – Rio de Janeiro
28 de outubro de 2025
A saúde vive um paradoxo: precisa inovar para sobreviver, mas sem romper com os valores que sustentam sua missão. Em instituições com tradição centenária, como a Santa Casa da Bahia — com cerca de 475 anos de história —, o desafio é duplo: preservar o legado e, ao mesmo tempo, evoluir tecnologicamente para garantir sustentabilidade e eficiência.
No episódio #16 do Medportal Podcast, Mônica Bezerra, Diretora Corporativa de Tecnologia e Operações da Santa Casa, compartilha como a tecnologia, quando alinhada à cultura e à governança, se torna um instrumento decisivo para integrar setores, fortalecer decisões e sustentar o futuro institucional.
A conversa traz aprendizados valiosos sobre:
- Como mudar a cultura de uma instituição tradicional para trilhar a jornada digital;
- Quais competências de liderança são essenciais na era da saúde digital;
- Como conectar tecnologia, decisão e cuidado humano;
- E como transformar dados em governança e sustentabilidade.
Esses temas conduziram a conversa do episódio, e um dos pontos centrais foi justamente o papel estratégico da tecnologia dentro das instituições.
Quando tecnologia deixa de ser custo e passa a ser estratégia
Mônica identificou um dilema comum nas instituições de saúde: “A tecnologia existe para nos apoiar, mas se não tivermos pensamento crítico, ficamos vulneráveis ao bombardeio de soluções.”
A fala resume um ponto-chave: não basta adotar tecnologia, é preciso conectá-la à estratégia.
De acordo com um relatório da McKinsey & Co, 75% dos executivos de sistemas de saúde dizem que a transformação digital é uma prioridade, mas não têm os recursos para fazer essa transformação acontecer. Essa lacuna entre prioridade e prática reforça a importância da governança. É nesse ponto que a visão de Mônica ganha força: pensamento crítico e propósito institucional são o que diferenciam a adoção consciente do simples modismo tecnológico.
Além disso, a Deloitte (2023) destaca que as iniciativas digitais mais bem-sucedidas não se limitam à redução de custos. Elas ampliam o valor institucional ao melhorar a experiência do paciente, fortalecer o engajamento dos colaboradores e promover sustentabilidade operacional — três eixos que dialogam diretamente com a missão assistencial das organizações de saúde.
Segundo o estudo, ecossistemas digitais eficazes nascem da integração entre pessoas, processos e tecnologia, e não da simples adoção de ferramentas isoladas. Essa é a diferença entre “fazer digital” e realmente ser digital, o que torna a transformação duradoura e estratégica.
Cultura e pessoas: o eixo invisível da liderança digital
“O principal é gostar de gente. Não existe liderança sem pessoas.”
A frase de Mônica sintetiza o que ela chama de mindset de crescimento: líderes que escutam, aprendem, testam e integram. Em uma organização tradicional como a Santa Casa, a inovação não foi imposta de fora para dentro: ela brotou da cultura.
Os valores institucionais (“Gostamos de gente”, “Juntos podemos mais”, “Fazemos bem feito, com segurança e sem desperdício”) serviram como bússola para integrar o digital ao humano. Essa harmonia entre cultura e tecnologia permite inovar sem perder a identidade e fortalece a confiança em toda a organização.
E é justamente a partir dessa cultura que emergem as competências essenciais da liderança digital — comportamentos e habilidades que sustentam a transformação. Elas traduzem, na prática, como o líder deve agir para que a tecnologia gere valor, e não ruído, dentro da instituição.
Competências essenciais da liderança digital
| Competência | Por que importa |
| Escuta ativa e empatia | Aproxima o líder das equipes e facilita a adesão às mudanças |
| Mentalidade de crescimento | Garante adaptação contínua em tempos de disrupção |
| Cultura de dados e decisão | Substitui achismos por informações confiáveis |
| Governança e propósito | Direciona a adoção tecnológica de forma sustentável |
Essas competências formam a base do que chamamos de liderança digital — uma combinação entre mentalidade, comportamento e propósito.
Framework D.A.T.A.: um roteiro para transformar tecnologia em decisões inteligentes
Inspirada pela experiência de Mônica Bezerra, o Medportal propõe um framework prático para líderes que desejam estruturar sua jornada digital de forma sustentável e orientada por resultados.
Framework “D.A.T.A.”
D — Diagnóstico
Mapeie sistemas, fluxos e gargalos. Pergunte-se: “Quais decisões seriam melhores se eu tivesse mais informação confiável?”
A — Alinhamento estratégico
Conecte tecnologia ao negócio e às metas institucionais, como eficiência operacional, experiência do paciente e indicadores assistenciais.
T — Transformação e adoção
Implemente soluções tecnológicas com foco em facilidade de uso e adesão das equipes. A tecnologia só gera valor quando é compreendida, aplicada e mantida viva na rotina.
A — Avaliação e governança
Monitore resultados e maturidade digital. Ajuste o plano com base em dados reais e revisões periódicas de governança.
Checklist rápido de implantação
- Mapear processos críticos (suprimentos, hotelaria, assistência)
- Criar matriz de decisão para escolha de tecnologia
- Formar governança com líderes de áreas diferentes
- Começar com piloto escalável
- Medir impacto e ajustar continuamente
Sem governança, a tecnologia perde seu papel transformador e volta a ser apenas ferramenta.
Sustentabilidade e tecnologia: o equilíbrio que garante longevidade
A transformação digital só gera valor quando vem acompanhada de estratégia, cultura e governança. Instituições que enxergam a tecnologia apenas como ferramenta isolada tendem a capturar uma fração mínima de seu potencial.
Para Mônica, sustentabilidade ambiental e tecnologia estão no mesmo patamar estratégico.
“A Santa Casa tem tecnologia e sustentabilidade como pilares iguais”, afirma.
E ela tem razão. Segundo a McKinsey (2024), apenas 13% das empresas conseguem extrair todo o valor da digitalização de suas cadeias de suprimentos. As demais ainda enfrentam barreiras de integração, priorização e uso estratégico dos dados. Isso mostra que o verdadeiro potencial da tecnologia só se concretiza quando há visão de longo prazo e governança sólida.
Em hospitais e redes assistenciais, o raciocínio é o mesmo: investir em tecnologia sem um plano estruturado de adoção e sustentabilidade pode gerar mais custo do que resultado. Sustentabilidade, portanto, não é freio, é condição de continuidade.
Ao incluir o meio ambiente e a eficiência energética no Plano Diretor de TI, a Santa Casa demonstra que inovar é também preservar. E esse equilíbrio entre tradição, propósito e inovação é o que garante a longevidade de uma instituição.
E nenhuma transformação se sustenta sem comprovação de valor, e é nesse ponto que entra o papel estratégico do ROI e da mensuração de resultados.
Como justificar investimentos em tecnologia para a alta liderança
A maior barreira para a digitalização na saúde nem sempre é técnica, é de convencimento.
Para conquistar o apoio da alta gestão, Mônica defende um princípio simples: clareza de propósito e métricas de valor. Cada investimento precisa estar conectado a um problema real, com indicadores capazes de comprovar o impacto clínico, operacional e financeiro.
Estudos confirmam essa visão. Pesquisas publicadas no PubMed Central (Epizitone et al., 2023) mostram que sistemas de informação em saúde aumentam a segurança e a eficácia do cuidado, fortalecendo decisões clínicas e melhorando a coordenação entre equipes. Já a Deloitte (2023) identificou mais de 50 alavancas de valor em projetos digitais bem estruturados, desde a redução de desperdício até a geração de novas receitas e o engajamento sustentável dos colaboradores.
A lógica é a mesma da educação corporativa: medir é o que transforma percepção em valor.
Como destacamos no artigo Como avaliar a eficácia dos treinamentos na saúde e comprovar resultados na prática, aqui no blog Medportal, não basta implementar, é preciso comprovar o retorno. Treinamentos e tecnologias partilham o mesmo desafio: ambos demandam clareza sobre o problema que resolvem, como medem impacto e quando geram resultados. Assim como se avalia ROI educacional por indicadores de adesão, comportamento e resultados assistenciais, a transformação digital também exige mensuração contínua e alinhamento estratégico.
Checklist para justificar o investimento
- Defina a pergunta central: “O que essa tecnologia precisa resolver?”
- Liste benefícios esperados: ganhos operacionais, clínicos e culturais.
- Quantifique o impacto: reduções de custo, aumento de produtividade, indicadores de qualidade.
- Estabeleça governança: defina responsáveis por acompanhar e revisar resultados.
- Integre ao planejamento institucional: o investimento precisa estar no orçamento estratégico e no plano diretor de tecnologia.
Tecnologia sem propósito gera desconfiança; com propósito e métricas claras, ela se transforma em resultado mensurável e sustentável.
Conclusão: a jornada digital é feita por pessoas, não por sistemas
A história da Santa Casa da Bahia prova que tradição e inovação não são opostas, elas são complementares! Com liderança humanizada, cultura de dados e governança sólida, é possível fazer da tecnologia uma ferramenta de cuidado, sustentabilidade e legado.
Para líderes da saúde, o convite é claro:
- Comece pela pergunta certa.
- Construa o plano diretor.
- E envolva pessoas que acreditam no propósito do cuidado.
A jornada digital não é uma chave que se gira, é um caminho que se trilha, passo a passo, com propósito e pessoas no centro.
🎧 Ouça o episódio completo do Medportal Podcast com Mônica Bezerra no Spotify e veja como a Santa Casa da Bahia está redefinindo o que significa inovar com alma, dados e propósito.🎧 Ouça no Spotifyumana e inovadora.
