Saúde, economia e desenvolvimento: como integrar sistemas e construir valor para a sociedade

Por: Redação Medportal – Rio de Janeiro
16 de junho de 2025

Quando falamos sobre desenvolvimento de um país, é natural que pensemos em crescimento econômico, geração de empregos, infraestrutura, segurança e educação. No entanto, existe um componente essencial que, muitas vezes, não recebe a mesma atenção nesses grandes planejamentos: a saúde.

Não se trata de dizer que a saúde não é importante para os governos — afinal, ela está presente nas discussões e nos orçamentos públicos. O problema está na forma como ela é tratada: frequentemente de forma isolada, desconectada de outros setores, como economia, transporte, habitação, meio ambiente e desenvolvimento urbano.

Essa fragmentação nas decisões faz com que a saúde fique à margem dos grandes planos estruturantes, o que prejudica não apenas a qualidade dos serviços, mas também o acesso da população a um cuidado integral, contínuo e efetivo.No novo episódio do Medportal Podcast, conversamos com uma das maiores autoridades em economia da saúde na América Latina: André Medici, que  traz uma visão valiosa, construída a partir de décadas de atuação no Brasil e em mais de 20 países,  sobre os desafios e os caminhos possíveis para integrar saúde, economia e desenvolvimento social.

Quem é André Medici?

André Médici é uma referência global em economia da saúde. Atuou como especialista sênior em saúde no Banco Mundial, apoiando reformas e planejamentos em diversos países da América Latina, Caribe, África e Ásia.

Foi um dos protagonistas da Reforma Sanitária Brasileira, que transformou o modelo de saúde do país e culminou na criação do Sistema Único de Saúde (SUS), na Constituição de 1988. Além disso, é professor, pesquisador, palestrante e consultor, sempre atuando na interseção entre saúde pública, políticas públicas, desenvolvimento e sustentabilidade dos sistemas de saúde.O grande diferencial de André é a capacidade de enxergar a saúde além do setor. Para ele, saúde não é um custo, nem um serviço isolado — é uma engrenagem central no desenvolvimento econômico e social de qualquer nação.

Planejamento de saúde: por que não podemos mais separar saúde de desenvolvimento

Ao longo de sua carreira, André percebeu um padrão que se repete em diversos países:

  • A saúde é planejada isoladamente, restrita aos orçamentos do Ministério da Saúde.
  • Enquanto isso, setores como economia, infraestrutura, desenvolvimento urbano e transporte fazem seus próprios planejamentos, sem considerar os impactos na saúde da população.

O resultado?

  • Sistemas de saúde sobrecarregados.
  • Populações vulneráveis sem acesso adequado.
  • Custos crescentes, que poderiam ser evitados se a saúde estivesse integrada às políticas de desenvolvimento.

“Saúde é uma questão de conhecimento. É necessário ensinar às pessoas como a saúde é importante para elas. Depois, ensinar aos setores como a saúde contribui para o seu desenvolvimento. E, por fim, ensinar aos governos como podem tirar o maior proveito possível da melhoria da saúde, para impulsionar o progresso da sociedade.” — André Medici.

Pluralismo Estruturado em Saúde: o que é e por que importa

Durante o episódio, André compartilha um conceito muito relevante para o contexto latino-americano: o Pluralismo Estruturado em Saúde, proposto por Juan Luis Londoño (ex-ministro da Saúde da Colômbia) e Julio Frenk (ex-ministro da Saúde do México).

Essa proposta reconhece que em países com realidades socioeconômicas desiguais, como os da América Latina, é inviável depender de um único modelo de financiamento. O pluralismo estruturado sugere que:

  • O financiamento da saúde seja compartilhado entre diferentes fontes, públicas e privadas.
  • O setor público se concentre no atendimento da população que não tem capacidade de pagar, garantindo acesso, equidade e proteção social.
  • O setor privado atue de forma complementar, atendendo quem pode contribuir financeiramente, aliviando a pressão sobre o sistema público e aumentando a cobertura da população como um todo.

Esse modelo não é uma defesa da privatização da saúde, mas sim uma forma pragmática de garantir sustentabilidade, eficiência e acesso universal, considerando as limitações econômicas dos países.

Integração público-privado: aprendizados do Brasil e do mundo

Um dos exemplos que André Médici traz no episódio é o da Kaiser Permanente, na Califórnia (EUA), considerada uma das maiores e mais bem-sucedidas organizações de saúde integradas do mundo.

O que a Kaiser fez foi revolucionar a lógica da atenção primária, colocando a prevenção no centro do modelo de negócio e da estratégia de bem-estar da população atendida.

O raciocínio é simples, mas poderoso: a maior parte dos custos de saúde decorre de doenças evitáveis. Logo, se você ajuda as pessoas a não adoecerem, todos ganham — pacientes, operadoras e o sistema de saúde em sua totalidade.

Funciona assim:

  • O paciente realiza um exame de admissão completo, que mapeia seus riscos de saúde (como hipertensão, diabetes, obesidade, sedentarismo e outros).
  • A partir desse diagnóstico, ele recebe um plano personalizado de prevenção, que pode incluir orientações nutricionais, práticas de atividade física e até parcerias com academias.
  • Há uma lógica de corresponsabilização: quanto mais o paciente se cuida e reduz seus riscos, menor é o valor que paga no plano de saúde.

É um modelo que transforma a saúde de reativa em proativa. O foco deixa de ser tratar a doença e passa a ser manter as pessoas saudáveis, produtivas e felizes.

📊 O impacto é claro: menos internações, menos utilização de pronto-socorro e queda significativa nos custos operacionais do sistema, além de melhora na qualidade de vida das pessoas.

No Brasil, André cita que existem experiências que, de certa forma, caminham nessa direção, ainda que em uma escala muito menor. É o caso de Piracicaba (SP) e Uberlândia (MG), onde há modelos de negociação entre o setor público e operadoras privadas, especialmente no campo da atenção primária.

Isso acontece porque, no Brasil, muitas operadoras têm dificuldade em estruturar serviços robustos de atenção primária, seja pelo custo, seja pela complexidade operacional. Uma das soluções que surge nesses municípios é utilizar a rede pública para oferecer a atenção primária também aos beneficiários de planos privados, através de acordos locais.Mas, Leonardo Carap destaca que, embora esses sejam bons exemplos, ainda são exceções. A realidade na maior parte dos municípios brasileiros ainda é marcada por realidades muito diferentes das mencionadas por André.

A pergunta que fica: como avançar?

O episódio traz uma reflexão central: nenhum sistema de saúde, seja público ou privado, será sustentável se continuar operando de forma fragmentada, sem integração com outros setores e desconectado dos desafios reais da sociedade.

E aqui surge uma provocação extremamente poderosa: Não existe desenvolvimento econômico sustentável sem saúde. E não existe sistema de saúde sustentável sem educação — da população, dos profissionais e dos próprios gestores públicos.

Por isso, defendemos que um dos maiores desafios dos próximos anos é investir em educação:

  • Educação da população sobre saúde, autocuidado e prevenção.
  • Educação dos profissionais de saúde, para que entendam não apenas medicina, mas também gestão, economia e políticas públicas.
  • Educação dos líderes, que precisam compreender que saúde não é um apêndice do desenvolvimento — é um pilar dele.

Se você chegou até aqui, já deu um passo importante. Discutir temas como planejamento, financiamento e integração dos sistemas de saúde não é simples, mas é absolutamente necessário.

Líderes de saúde são, mais do que nunca, agentes de transformação na sociedade.

Que este artigo e este episódio sejam uma porta de entrada para uma reflexão mais profunda e uma atuação mais consciente.

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena

Encerramos este artigo com a frase de Fernando Pessoa, que André traz como inspiração de vida e de trabalho:

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

Na saúde, isso significa que cada esforço por integração, planejamento e transformação vale a pena. Que líderes, profissionais e cidadãos podem — e devem — ser agentes de mudança.

Que tal seguir se inspirando?

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🎧 Ouça o episódio completo agora e mergulhe nesse debate essencial!

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