O custo invisível da equipe não treinada: como colocar um número no risco

Por: Redação Medportal – Rio de Janeiro
06 de Julho de 2026

Quando o orçamento aperta, treinamento costuma ser a primeira coisa cortada. É fácil entender por quê: o corte aparece no mês seguinte, mas ninguém sente o efeito na hora. A questão é que quase nenhum gestor calcula o outro lado da conta: o custo de não treinar. E esse custo não fica concentrado numa única rubrica: ele aparece disperso, num evento adverso que prolonga a internação, numa rotatividade que sobe aos poucos, numa hora extra que vira rotina para cobrir o que a equipe ainda não domina.

Os números mais recentes mostram que essa pressão é real. Segundo o Observatório 2025 da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), com dados de 2024, a rotatividade de pessoal subiu de 2,27% para 2,60%, enquanto a glosa inicial das operadoras saltou de 11,89% para 15,89% em apenas um ano.

Com o orçamento sob essa pressão, cada linha precisa justificar seu retorno. Este artigo mostra onde o custo de não treinar costuma se esconder e como transformar isso em um número que o gestor consiga defender.

O custo que tem nota fiscal

Toda instituição de saúde consegue enxergar o custo de treinar porque ele é concreto: horas de instrutor, plataforma, equipe fora da escala durante o treinamento. Justamente por ser visível e fácil de datar, é o primeiro alvo quando a diretoria precisa cortar gastos. E a justificativa parece razoável, afinal, adiar um treinamento não fecha um leito nem atrasa uma cirurgia.

O que esse raciocínio deixa de fora é a outra metade da conta. O custo de treinar é a parte visível; a parte que realmente pesa no resultado não vem com nota fiscal, e é exatamente por isso que ninguém a desconta do orçamento.

As contas que ninguém soma

O custo da equipe despreparada não aparece numa conta única. Ele se distribui por rubricas diferentes, cada uma pequena o suficiente para passar despercebida, e é só quando somadas que o tamanho real aparece.

A primeira rubrica é o evento adverso. Segundo o Global Patient Safety Report 2024, da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de um em cada dez pacientes sofre algum dano durante o cuidado, e cerca de metade desses eventos poderia ser evitada. Na prática, boa parte dos eventos evitáveis nasce de uma conduta que a equipe poderia ter dominado com a formação adequada. Cada um deles prolonga a internação e multiplica o custo do caso; o número exato varia de instituição para instituição e pode ser estimado multiplicando os eventos evitáveis do último ano pelo custo médio de diária da própria operação.

~50%
dos eventos adversos no cuidado seriam evitáveis, e mais de 1 em cada 10 pacientes sofre algum dano. Evitável quer dizer, em boa parte, treinável.
Fonte: OMS, Global Patient Safety Report, 2024.

A segunda rubrica é a rotatividade. O mesmo Observatório Anahp registrou o indicador subindo para 2,60% em 2024. Cada desligamento gera custos de recrutamento, seleção e integração, além da queda de produtividade até o substituto atingir o rendimento esperado; somados, esses itens costumam equivaler a vários meses de salário do profissional que saiu. E há uma relação direta com a educação: equipes que não enxergam perspectiva de desenvolvimento tendem a deixar a instituição mais cedo, levando junto o conhecimento que ela pagou para formar.

A terceira rubrica reúne a hora extra e o retrabalho. São itens que quase nunca entram na planilha do treinamento, mas nascem da mesma origem: o turno que precisa de reforço porque alguém não domina o procedimento, a tarefa refeita porque saiu errada na primeira vez, o plantonista experiente convocado para resolver o que a equipe de base não conseguiu. Vistos isoladamente, parecem ruído normal da operação. Somados às duas rubricas anteriores, costumam superar com folga o valor do programa que foi cortado.

Por que ficou mais caro agora

Há ainda um fator recente que aumentou o peso dessa conta. Em 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Nota Técnica GVIMS/GGTES nº 09/2025, que atualiza as regras de notificação de incidentes e eventos adversos e reforça o papel do Núcleo de Segurança do Paciente nas instituições. Na prática, a exigência subiu de patamar: além de cuidar bem, a instituição precisa demonstrar, com registro, que cuidou. A equipe despreparada passou a gerar, assim, um segundo tipo de exposição, além do risco assistencial: o de não conseguir comprovar a competência do time quando ela for auditada. E um certificado de presença em treinamento, sozinho, não cumpre esse papel; o que as auditorias buscam é evidência de que a prática mudou.

O que os dados dizem sobre o efeito de treinar

Se o custo de não treinar é tão concreto, cabe perguntar se treinar de fato o reduz. A literatura recente indica que sim: revisões publicadas em 2024 e 2025 sobre educação permanente e segurança do paciente convergem na mesma direção, quanto mais preparado o profissional, menor a chance de dano associado à assistência. Os indicadores do setor apontam para o mesmo lado: o Observatório Anahp 2025 registrou tempo médio de permanência de 3,99 dias e mortalidade operatória de 0,27%, os melhores resultados dos últimos anos, num conjunto de hospitais que trata processo e formação de equipe como investimento contínuo.

Equipe sem desenvolvimento
  • Eventos adversos evitáveis que prolongam a internação
  • Rotatividade subindo (2,60% em 2024)
  • Hora extra e retrabalho para cobrir lacunas
Equipe que investe em educação
  • Permanência média de 3,99 dias
  • Mortalidade operatória em 0,27%
  • Competência que se consegue comprovar

Treinar o que importa, e registrar

Antes do cálculo, vale uma ressalva para evitar uma leitura apressada. O custo não cai porque a equipe passou horas em sala de aula; cai quando ela aprende a competência certa e a instituição consegue registrar essa aprendizagem. Um treinamento genérico, sem conexão com os riscos reais da operação e sem evidência de adesão, consome o orçamento sem alterar nenhum indicador. O que separa a despesa que a diretoria corta do investimento que ela defende é o vínculo entre três elementos: o que se ensina, o risco que se quer reduzir e o registro que comprova o resultado.

Como colocar um número no custo da inação

A boa notícia para quem precisa defender orçamento é que esse custo invisível pode ser calculado com dados que a própria instituição já tem. Um caminho possível, em quatro passos:

  1. Levante os eventos adversos evitáveis dos últimos doze meses e multiplique pelo custo médio da diária. Isso já dá o piso do que a falta de preparo custou em leitos.
  2. Multiplique os desligamentos do período pelo custo real de reposição (recrutamento, seleção, integração e queda de produtividade) para chegar ao custo de quem saiu.
  3. Some as horas extras e o retrabalho ligados a lacunas de competência. Poucas instituições medem isso, e quem mede costuma se surpreender com o resultado.
  4. Compare o total com o valor do programa de educação que estava em análise.

Um exemplo ajuda a tornar isso concreto. Num hospital de 300 leitos, evitar dez eventos adversos por ano, supondo sete dias adicionais de internação em cada um, já devolve setenta leitos-dia à operação: capacidade que pode ser usada para novos pacientes em vez de perdida para uma falha evitável. Colocado lado a lado com o custo de um programa de educação continuada, esse número raramente justifica o corte.

Às vezes, esse cálculo nem precisa ser feito pela diretoria, pois o sinal já vem da própria equipe. Foi o que aconteceu no Hospital São Vicente de Curitiba, onde a demanda por capacitação partiu dos próprios profissionais.

“Foram eles, inclusive, que começaram a pedir por mais capacitação; por isso, recorremos ao Medportal.”

Emanuelle Pacheco, Analista de Desenvolvimento e Capacitação, Hospital São Vicente de Curitiba

Quando a própria equipe pede treinamento, o custo invisível já é sentido no dia a dia. Ignorar esse sinal só adia uma decisão que, mais cedo ou mais tarde, vai custar mais caro.

A conta se inverte quando você a soma

Treinar equipe nunca foi sobre cumprir uma agenda de recursos humanos. É a variável que, quando bem trabalhada, faz todas as outras contas encolherem: menos eventos adversos, menos rotatividade, menos hora extra e mais capacidade de comprovar competência quando ela é exigida. O gestor que insiste em tratar educação como despesa vai perder a disputa por orçamento para quem já aprendeu a colocar um número no preço de não fazer nada. O custo invisível só continua invisível para quem nunca parou para somá-lo.

No Medportal, já ajudamos mais de 600 instituições e 700 mil profissionais de saúde a transformar educação continuada em prática rastreável, com o registro que sustenta indicadores e auditorias. Se você quer dimensionar o custo da inação na sua operação, comece uma conversa com o nosso time.

Referências e fontes

  • Global Patient Safety Report 2024 (Organização Mundial da Saúde, OMS, 2024)
  • Observatório Anahp 2025, dados de 2024 (Anahp, 2025)
  • Nota Técnica GVIMS/GGTES nº 09/2025 (Anvisa, 2025)
  • Revisões sobre educação permanente e segurança do paciente (2024 e 2025)
  • Depoimento do Hospital São Vicente de Curitiba (Emanuelle Pacheco, Analista de Desenvolvimento e Capacitação)
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